“Though I know I’ll never lose affection for people and things that went before, I know I’ll often stop and think about them… in my life I love you more”

Resolvi escrever para lembrar as pessoas do que elas significam pra mim e do que aprendi com elas que, no fim, é tudo o que eu aprendi (at all) nessa vida. O fato é que eu gosto de pessoas e penso que elas são o que há de mais precioso na minha vida e, exatamente por gostar tanto, me irrito com muitas delas: não sei ser indiferente a pessoas, elas nunca viram paisagem pra mim. Eu gosto especialmente das gentes que têm várias pessoas dentro de si, e gosto de conhecer todas elas, e gosto que cada uma delas chame por uma das que vivem dentro de mim.
 
Não estou inaugurando momento nenhum na minha vida, a bem da verdade eu estou naquela fase de curtir o desenrolar de processos que começaram há mais ou menos tempo; começo a escrever do meio do caminho, não do ponto de partida ou chegada (se houver), porque afinal a gente só tem consciência do passo que está dando no momento que ele é dado – o próximo é incerto e o anterior é esquecido e/ou maquiado com a roupagem do momento presente.
 
E o “passo” que eu estou dando agora na verdade é um aceno inerte pra alguém que está indo dar vários passos longe de mim por caminhos que são tão incertos quanto entusiasmados. Às vezes eu penso que esqueci como é chorar de saudade antecipada, e então eu me lembro de como é e dói, e antes que eu me dê conta eu já estou chorando. Por pura patifaria.
 
Esse alguém me ensinou uma das lições mais importantes da vida, que eu guardo com muito carinho e que eu penso ser tratada com descaso hoje em dia. Ele me ensinou que não tem problema você ser feliz, e que sorrir não é um demérito.
 
Eu tive uma vida tão difícil quanto qualquer outra no mundo, com um único diferencial: a confluência de sofrimentos relacionados a esferas da vida que não são relativizadas, mas absolutas. Cada um teoricamente deveria “saber a dor e a delícia de ser o que é”, mas o fato é que todos aprendemos muito rápido a constatar a própria dor e a delícia do próximo, esquecendo das dores do próximo que você não seria, nunca, capaz de entender. E tem as dores do próximo que você acha que entende, porque qualquer um entenderia, porque essas coisas são foda mesmo, qualquer um concordaria que aquela pessoa teve uma vida complicada. Com tudo isso eu acho que acabei me convencendo de que eu teria, de fato, tido uma vida mais difícil que as outras pessoas e a forma que encontrei pra lidar com isso foi criar e assumir um discurso de “superação”, de glorificação de dores (das quais eu me envergonho), de querer nivelar o bom e o mau da vida com o handicap de ter pago antecipadamente por pecados que eu certamente viria a cometer. Por muito tempo eu pensei que essa fosse a única alternativa, e estaria mentindo se dissesse que não foi bom pra mim; é cômodo viver pensando que a vida lhe deve alguma justiça depois de tanto já sofrido. Talvez seja a mesma sensação de se aposentar.
 
Porém, ele apareceu vivendo uma vida que muita gente julgava fácil, e que era feliz e assumia sua felicidade e sorria despreocupada e despretensiosamente. Queria aprender e entender como ele tinha essa capacidade incrível de ser feliz, de sorrir, de ser solidário o suficiente pra contrariar a tendência egoísta natural que a gente tem de querer se sentir incluído através da partilha da dor do próximo e aceitar a solidão que é oferecer um sorriso sincero a alguém que sofre. Queria entender como alguém podia ser humilde a ponto de aceitar que não, não era capaz de entender o que você está passando, e não sabia como era viver tudo aquilo, e nem imaginava como seria ou o que faria no seu lugar. Como alguém poderia ser forte o suficiente pra aceitar a solidão última da felicidade, o isolamento que é você ser feliz num mundo triste que cobra a sua condolência; e não se trata de ignorar o outro. É enxergar o outro, de verdade, com sinceridade, mas perceber que ele é e sempre será “o outro”, e não você, e por isso aquele sofrimento é e será sempre dele e não seu. Contudo, os sofredores têm ao seu lado toda uma marcha silenciosa de outros sofredores que vivem cada um em sua esfera mas que se atrelam a outras em busca de simpatia ou compreensão, e aprendem com isso a se enxergar no outro, e por isso passam a sentir que dividem o peso que carregam. Eu me lembro de um dia específico de uma época em que eu mal o conhecia e eu estava, pra variar, triste. Falei com ele. Compenso a falta de precisão nas palavras e expressões exatas que ele utilizou atribuindo um tom poético ao que ele quis dizer: “não sei entender como você se sente e você está longe pra eu oferecer o meu ombro, então ao invés de pedir que você me dê sua tristeza, vou te oferecer minha felicidade que é tudo o que eu tenho agora pra te dar”. Eu poderia citar mil exemplos e situações em que ele fez isso, over and over again, mas seria constrangedor pra ele e pra mim, provavelmente. Esse episódio, na vida real, crua e em prosa, foi de um dia em que (ironicamente) eu estava em NY com saudade de alguém e ele estava no Brasil, sentindo saudade de outro alguém por um motivo diverso ao meu. E ele me mandou um vídeo de um gordinho dançando e eu parei de chorar por chorar e comecei a chorar de rir. Acho que foi a primeira vez que eu chorei por causa dele, e talvez ele nem saiba. Tantas e tantas vezes ele me fez chorar de alegria (ou de rir), em situações insólitas das quais eu mal consigo me lembrar, e tantas vezes ele me deixou sorrir diante de qualquer problema que eu ou ele tivéssemos. Acho que ele nunca me fez chorar de tristeza ou de raiva ou de mágoa, ou nada, no máximo de saudade. E agora eu já não sei mais se chorei numa madrugada de quarta-feira na Galeria dos Pães dentro de um pote de balas por saudades antecipadas dele, que nunca me deixou sentir sozinha, ou se chorei de felicidade por pensar que eu estava fazendo parte daquele momento e que ele deixou pra me dar tchau por último porque sabia o tanto que aquilo significava pra mim. E não que significasse menos pra quem estava lá também; ele só aprendeu, sorrindo, que o meu jeito de sofrer é esse, chorando e querendo abraço e querendo ir embora correndo ao mesmo tempo que queria ficar lá pra sempre.
 
Parece-me inútil agradecer por todas as tantas pequenices mágicas que ele me fez; talvez nem ele mesmo lembre ou saiba delas tanto quanto eu, e talvez ele não as guarde com tanta estima quanto eu simplesmente porque são-lhe atitudes naturais ao passo que me emocionam pela minha vivência carente delas. Acho que só queria que ele soubesse que foi o primeiro a me mostrar que tudo bem eu ser feliz mesmo quando eu talvez não tenha motivos para tal e que, se hoje eu sei amar (aos outros e a mim mesma) desse jeito meu, foi porque ele me ensinou que podia e que tudo bem. E que eu não tenho que ser forte, sempre, que tudo bem eu dormir e que tudo bem eu chorar e que tudo bem eu ser cabeça dura e cometer mil vezes o mesmo erro, porque são esses erros que fazem de mim quem eu sou, e por esses tantos erros (e alguns acertos) ele gostava de mim.
 
Eu sei que todas essas palavras só devem fazer sentido pra mim (e quem sabe pra ele). Mas tudo bem. Com ele também aprendi que conformismo também é uma forma de sabedoria. E nesse momento eu tenho motivos pra ficar triste de saudade, pra chorar e pra me angustiar por pensar na ausência e na fome da sua presença que eu vou sentir… mas eu aprendi a sorrir pra isso também. Então, abraço a saudade e a sua ausência e sigo desejando o seu melhor, sempre confiante de que ele sempre conseguirá o que quer; não só por merecimento, porque os seus méritos ultrapassam os limites da concepção judaico-cristã daquilo que é certo para ser feito, mas também porque é impossível negar algo pra alguém que está sempre sorrindo. E porque eu sei que dentro dele vivem umas tantas pessoas todas irresistivelmente adoráveis que vão conseguir tirar um sorriso de quem quer que seja onde quer que seja. 
 
That’s just who he is.
 
And he is my bridge over troubled water.
 
And I love him for that. And for as many other things as there are for somebody to love a friend.

“Though I know I’ll never lose affection for people and things that went before, I know I’ll often stop and think about them… in my life I love you more”

Resolvi escrever para lembrar as pessoas do que elas significam pra mim e do que aprendi com elas que, no fim, é tudo o que eu aprendi (at all) nessa vida. O fato é que eu gosto de pessoas e penso que elas são o que há de mais precioso na minha vida e, exatamente por gostar tanto, me irrito com muitas delas: não sei ser indiferente a pessoas, elas nunca viram paisagem pra mim. Eu gosto especialmente das gentes que têm várias pessoas dentro de si, e gosto de conhecer todas elas, e gosto que cada uma delas chame por uma das que vivem dentro de mim.

 

Não estou inaugurando momento nenhum na minha vida, a bem da verdade eu estou naquela fase de curtir o desenrolar de processos que começaram há mais ou menos tempo; começo a escrever do meio do caminho, não do ponto de partida ou chegada (se houver), porque afinal a gente só tem consciência do passo que está dando no momento que ele é dado – o próximo é incerto e o anterior é esquecido e/ou maquiado com a roupagem do momento presente.

 

E o “passo” que eu estou dando agora na verdade é um aceno inerte pra alguém que está indo dar vários passos longe de mim por caminhos que são tão incertos quanto entusiasmados. Às vezes eu penso que esqueci como é chorar de saudade antecipada, e então eu me lembro de como é e dói, e antes que eu me dê conta eu já estou chorando. Por pura patifaria.

 

Esse alguém me ensinou uma das lições mais importantes da vida, que eu guardo com muito carinho e que eu penso ser tratada com descaso hoje em dia. Ele me ensinou que não tem problema você ser feliz, e que sorrir não é um demérito.

 

Eu tive uma vida tão difícil quanto qualquer outra no mundo, com um único diferencial: a confluência de sofrimentos relacionados a esferas da vida que não são relativizadas, mas absolutas. Cada um teoricamente deveria “saber a dor e a delícia de ser o que é”, mas o fato é que todos aprendemos muito rápido a constatar a própria dor e a delícia do próximo, esquecendo das dores do próximo que você não seria, nunca, capaz de entender. E tem as dores do próximo que você acha que entende, porque qualquer um entenderia, porque essas coisas são foda mesmo, qualquer um concordaria que aquela pessoa teve uma vida complicada. Com tudo isso eu acho que acabei me convencendo de que eu teria, de fato, tido uma vida mais difícil que as outras pessoas e a forma que encontrei pra lidar com isso foi criar e assumir um discurso de “superação”, de glorificação de dores (das quais eu me envergonho), de querer nivelar o bom e o mau da vida com o handicap de ter pago antecipadamente por pecados que eu certamente viria a cometer. Por muito tempo eu pensei que essa fosse a única alternativa, e estaria mentindo se dissesse que não foi bom pra mim; é cômodo viver pensando que a vida lhe deve alguma justiça depois de tanto já sofrido. Talvez seja a mesma sensação de se aposentar.

 

Porém, ele apareceu vivendo uma vida que muita gente julgava fácil, e que era feliz e assumia sua felicidade e sorria despreocupada e despretensiosamente. Queria aprender e entender como ele tinha essa capacidade incrível de ser feliz, de sorrir, de ser solidário o suficiente pra contrariar a tendência egoísta natural que a gente tem de querer se sentir incluído através da partilha da dor do próximo e aceitar a solidão que é oferecer um sorriso sincero a alguém que sofre. Queria entender como alguém podia ser humilde a ponto de aceitar que não, não era capaz de entender o que você está passando, e não sabia como era viver tudo aquilo, e nem imaginava como seria ou o que faria no seu lugar. Como alguém poderia ser forte o suficiente pra aceitar a solidão última da felicidade, o isolamento que é você ser feliz num mundo triste que cobra a sua condolência; e não se trata de ignorar o outro. É enxergar o outro, de verdade, com sinceridade, mas perceber que ele é e sempre será “o outro”, e não você, e por isso aquele sofrimento é e será sempre dele e não seu. Contudo, os sofredores têm ao seu lado toda uma marcha silenciosa de outros sofredores que vivem cada um em sua esfera mas que se atrelam a outras em busca de simpatia ou compreensão, e aprendem com isso a se enxergar no outro, e por isso passam a sentir que dividem o peso que carregam. Eu me lembro de um dia específico de uma época em que eu mal o conhecia e eu estava, pra variar, triste. Falei com ele. Compenso a falta de precisão nas palavras e expressões exatas que ele utilizou atribuindo um tom poético ao que ele quis dizer: “não sei entender como você se sente e você está longe pra eu oferecer o meu ombro, então ao invés de pedir que você me dê sua tristeza, vou te oferecer minha felicidade que é tudo o que eu tenho agora pra te dar”. Eu poderia citar mil exemplos e situações em que ele fez isso, over and over again, mas seria constrangedor pra ele e pra mim, provavelmente. Esse episódio, na vida real, crua e em prosa, foi de um dia em que (ironicamente) eu estava em NY com saudade de alguém e ele estava no Brasil, sentindo saudade de outro alguém por um motivo diverso ao meu. E ele me mandou um vídeo de um gordinho dançando e eu parei de chorar por chorar e comecei a chorar de rir. Acho que foi a primeira vez que eu chorei por causa dele, e talvez ele nem saiba. Tantas e tantas vezes ele me fez chorar de alegria (ou de rir), em situações insólitas das quais eu mal consigo me lembrar, e tantas vezes ele me deixou sorrir diante de qualquer problema que eu ou ele tivéssemos. Acho que ele nunca me fez chorar de tristeza ou de raiva ou de mágoa, ou nada, no máximo de saudade. E agora eu já não sei mais se chorei numa madrugada de quarta-feira na Galeria dos Pães dentro de um pote de balas por saudades antecipadas dele, que nunca me deixou sentir sozinha, ou se chorei de felicidade por pensar que eu estava fazendo parte daquele momento e que ele deixou pra me dar tchau por último porque sabia o tanto que aquilo significava pra mim. E não que significasse menos pra quem estava lá também; ele só aprendeu, sorrindo, que o meu jeito de sofrer é esse, chorando e querendo abraço e querendo ir embora correndo ao mesmo tempo que queria ficar lá pra sempre.

 

Parece-me inútil agradecer por todas as tantas pequenices mágicas que ele me fez; talvez nem ele mesmo lembre ou saiba delas tanto quanto eu, e talvez ele não as guarde com tanta estima quanto eu simplesmente porque são-lhe atitudes naturais ao passo que me emocionam pela minha vivência carente delas. Acho que só queria que ele soubesse que foi o primeiro a me mostrar que tudo bem eu ser feliz mesmo quando eu talvez não tenha motivos para tal e que, se hoje eu sei amar (aos outros e a mim mesma) desse jeito meu, foi porque ele me ensinou que podia e que tudo bem. E que eu não tenho que ser forte, sempre, que tudo bem eu dormir e que tudo bem eu chorar e que tudo bem eu ser cabeça dura e cometer mil vezes o mesmo erro, porque são esses erros que fazem de mim quem eu sou, e por esses tantos erros (e alguns acertos) ele gostava de mim.

 

Eu sei que todas essas palavras só devem fazer sentido pra mim (e quem sabe pra ele). Mas tudo bem. Com ele também aprendi que conformismo também é uma forma de sabedoria. E nesse momento eu tenho motivos pra ficar triste de saudade, pra chorar e pra me angustiar por pensar na ausência e na fome da sua presença que eu vou sentir… mas eu aprendi a sorrir pra isso também. Então, abraço a saudade e a sua ausência e sigo desejando o seu melhor, sempre confiante de que ele sempre conseguirá o que quer; não só por merecimento, porque os seus méritos ultrapassam os limites da concepção judaico-cristã daquilo que é certo para ser feito, mas também porque é impossível negar algo pra alguém que está sempre sorrindo. E porque eu sei que dentro dele vivem umas tantas pessoas todas irresistivelmente adoráveis que vão conseguir tirar um sorriso de quem quer que seja onde quer que seja.

 

That’s just who he is.

 

And he is my bridge over troubled water.

 

And I love him for that. And for as many other things as there are for somebody to love a friend.

“Everything you can possibly need is just outside your comfort zone.”
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